UERN - Ato Ecumênico - Formandos Letras 2014.2


















































































O Discurso....por André Magri.
ANTES QUE SEJA TARDE
Com força e com vontade, a felicidade há de se espalhar com toda intensidade. Há de molhar o seco e enxugar os olhos; de iluminar os becos antes que seja tarde! Há de assaltar os bares e retomar as ruas e visitar os lares antes que seja tarde! Há de rasgar as trevas e abençoar o dia, e de guardar as pedras antes que seja tarde! Há de deixar sementes do mais bendito fruto na terra e no ventre antes que seja tarde! Há de fazer alarde e libertar os sonhos da nossa mocidade antes que seja tarde! Há de mudar os homens antes que a chama apague; antes que a fé se acabe; antes que seja tarde!

(Ivan Lins/Vitor Martins)
 

 
Escreveu João Guimarães Rosa em um dos maiores clássicos da literatura brasileira, Grande Sertão: Veredas: [...] mire, veja: o mais importante e bonito do mundo é isto; que as pessoas não estão sempre iguais, ainda não foram terminadas, mas que elas vão sempre mudando. Afinam ou desafinam. Verdade maior. É o que a vida me ensinou. 
Hoje, 20 de abril de 2015, é inevitável não recordar de 28 de fevereiro de 2011. Nosso primeiro dia de aula como universitárias e universitários na UERN Câmpus Assu, no curso de Letras. As palavras de Guimarães Rosa parecem ecoar em cada face, em cada coração de cada um de nós, futuras professoras e professores de linguagens; afinal, nestes pouco mais de quatro anos vivenciamos inúmeras metamorfoses, vagamos por muitas dimensões e fizemo-nos gente em diversos caminhos, “sempre mudando”, sempre oscilando entre o “afinar” e o “desafinar”. 
Estamos aqui reunidos para vivenciar o sentido de um ato ecumênico, que é a consciência espiritual elevada e evoluída de que, sendo diferentes, sendo “estranhos ímpares”, como na poesia de Drummond, oramos diferente, evocamos proteção e bênçãos com ritos distintos, perpassamos diversas searas na contemplação de quem acreditamos, por fé, olhar por nós. Na diferença, somos maiores e melhores.
O grande sentido da nossa reunião hoje não está no evocar de exemplos de grandes e homens e mulheres santificados pela sua história e exemplo de humanidade; ou nos esforços por vivenciar o texto bíblico como razão da vida; ou mesmo na crença de que, sendo seres em constante evolução, encontramo-nos sempre em espírito com os outros; e também no culto à Oxalá e à imortalidade da alma. Não. O sentido maior de estarmos aqui é saber (ou ter aprendido) que Deus é múltiplo, polifônico, polissêmico, plural como os mosaicos da Basílica de San Vitale. Sendo Deus energia de amor e semblante da diversidade, a carta de amor que cada um escreve a ele em forma de vida é íntima, e só diz respeito a cada um e a cada uma.
Manoel de Barros, o poeta-passarinho fazedor de ignorâncias, nos falou sobre o ofício de carregar água na peneira. Nos ensinou que, nas experiências diárias, como pessoas, como gentes, como professoras e professores, nos cabe encher os vazios com nossas peraltagens, fazendo arte com as palavras, e aprendendo, reaprendendo e desaprendendo em meio ao universo de sentidos que guardam a “palavramundo” e a “palavra escrita” tão evocadas pelo Patrono da Educação Brasileira, Paulo Freire.
Há salmos bíblicos, mas também há salmos na literatura, na música. Quem sabe a própria bíblia não seja literatura e canção? No Salmo de Bethânia, que leio como espelho, vejo a mim e a cada um de nós, vejo a nossa missão: “Diante da vida que é sublime/Ai, de quem se reprime/Se ausenta e nem tenta viver/Deve ficar olhando o mundo/E lamentando sozinho/Não quero ter letargia/Eu quero ser rodamoinho/Eu quero ser travessia/Eu quero abrir o meu caminho/Ser minha própria estrela-guia/Virar um passarinho/Cantando a vida assim/Cantando além de mim/E além de além do fim”.
Ser professor é ser poeta. É dar à vida eterno estado de poesia. O poeta é um ser simples e que está sempre vulnerável à experiência. Por isso, sente; chora; tem dor. A nós, futuros professores e professoras, o desafio de, em meio a tanta mediocridade, não sucumbirmos em arrogância, indiferença e desprezo: a nós, amigos, amigas e colegas do curso de Letras, o maior dos desafios: não cegar de obviedades, não deixar que a cegueira branca de Saramago nos tire a sensibilidade, continuar buscando a ilha desconhecida que é cada um de nós. A felicidade está nisso: num caminhar de vulnerabilidades. Por que ser sempre forte e resistente, se as coisas que realmente importam na vida – o amor, a paixão, a poesia, a saudade, a dor – nos invadem no âmago das nossas fragilidades, das humanas rupturas? Não somos soldados, nem devemos ir às escolas pensando em formar pequenos soldados. Somos gente: de carne, ossos, sonhos e histórias. Nossas crianças, jovens e adultos também. 
“Quem não sabe povoar sua solidão, também não saberá ficar sozinho em meio a uma multidão”, nos disse Baudelaire. Mais contundente, Rancière afirma: “tropeçar não é nada; o mal está em divagar, em sair do próprio rumo, em já não prestar atenção ao que se diz, em esquecer o que se é. Vá então por teu caminho”. É estranho, como professor e egresso do curso de Letras, vir aqui lhes falar sobre ir pelo seu caminho. Meu caminho não pode ser o de vocês. Nem o de vocês o meu, porque não há um caminho apenas. “Caminhante, não há caminho. O caminho se faz ao caminhar”, dirá o poeta espanhol António Machado. O português José Régio, no seu Cântico Negro, é categórico: “Ah, que ninguém me dê piedosas intenções/Ninguém me peça definições!/Ninguém me diga: "vem por aqui"!/A minha vida é um vendaval que se soltou/É uma onda que se alevantou/É um átomo a mais que se animou.../Não sei por onde vou/Não sei para onde vou/
Sei que não vou por aí!”
Nego-me a ir por aí: por esse caminho fácil, sem tempestades, sem intempéries, sem vida. Nego-me a ir por esse caminho sem autocrítica, sem autoavaliação, sem dor, sem sangue vertendo de todo o corpo e da alma, sem o fogo avassalador da humanidade. Nego-me a ser mais um em meio a outros uns, sem perigo, sem paixões, sem movimento. Nego-me a ir por aí, por onde me chamam, pelo certo, pelo adequado, pelo sempre correto. Preciso do erro, das inadequações, do inconstitucional, do ilegal. A felicidade não é sistematizada, não é curricular, não é lei. É palavra de amor, é sentido e não sentido, é matéria de todo professor capaz de sentir e de fazer sentir. Os convoco à transformação, porque não há revolução sem resistência. E, principalmente: não há revolução fora da escola, fora da sala de aula, fora de alunos e professores – somos nós a esperança de dias mais bonitos. 
Pergunto-me e pergunto a vocês todos e todas: o que será de nós todos logo mais, se não dilatarmos nossos corações ao infinito? O que nos espera, o que espera nossos filhos, o que espera nossos netos, nossos irmãos, se não desprezarmos todo tipo de preconceito, todo cerceamento da liberdade, toda tentativa de mecanizar a vida? O que nos espera se continuarmos a nos encantar mais com um Iphone de última geração do que com as gotas de chuva que nos surpreendem na volta pra casa tocando nosso rosto e invadindo nosso corpo e alma de uma esperança molhada de vida? Muitos tentaram estar aqui, nesta noite, prestes a concluírem o ensino superior, a possuírem um título, cursarem a universidade. A desigualdade, porém, ceifa esses sonhos. E apenas alguns, poucos, infelizmente, conseguem. Nós estamos aqui. E isso não é razão de comemoração apenas, mas de luta. Luta pelos direitos humanos, luta por mais gente nas universidades, luta por educação de qualidade e pública para todos, independendo do número de CPF dos pais ou do CEP de cada um. Eu não sou a prova de que todos podem. Nem vocês o são. Somos, muito mais, prova de que ainda há injustiça e desamor. E por isso, como profissionais de Letras, nos cabe à humanização como fio de Ariadne que nos salva do labirinto de nós mesmos, habitado por Minotauros de cólera, inveja, arbitrariedades e maldade. “O inferno são os outros”, disse Sartre. Mas não os outros de fora. Os outros que estão em nós. 
Quinta-feira, me formarei em Letras com vocês, meus colegas e amigos. Mas também me formarei com a Profª. Maria do Socorro, que me ensinou na educação infantil; com o Prof. Francisco de Paula, que esteve comigo na 1ª série; com a Profª. Vitória, que me lecionou na 2ª e 4ª séries; e com a Profª. Iolanda Tavares, minha tia da 3ª série – todos egressos do PARFOR, licenciados em Pedagogia. Fui aluno deles de 1995 a 2001. E isso me emociona profundamente. Vamos nos olhar como iguais. E ver como cada um cresceu e mudou. E ver como a vida é maior que tudo isso, que todos os títulos, que todas as honras e prêmios. A vida é algo que não cabe. 
Gostaria de agradecer a todos e a cada um que contribuiu com nossas trajetórias até aqui. Muitas pessoas para contar. Por isso, basta senti-las. Agradeço, em nome da Turma Prof. Dr. Ivandilson Costa, à UERN Assu que nos acolheu durante esse período, aos professores e às professoras que nos tornaram melhores e mais humanos, aos convidados da noite, a Deus – por permitir tudo isso. Agradeço, por fim, a minha mãe, Dona Marinez, e ao meu pai, Seu José, que se encontram na plateia, e que merecem o diploma de melhores pais do mundo, outorgado pela Universidade da Vida. 
Parafraseando Milton Nascimento, há palavras e há momentos/ eu não sei como explicar/em que a voz é um instrumento/que não posso controlar/ela vai ao infinito/ela amarra todos nós/eu só sei que há momentos que se casam com palavras e poesia/e de fazer tão casamento vive a nossa profissão. 
Como Fernando Pessoa, tenho em mim todos os sonhos do mundo. E sei que vocês também os têm! Não esqueçam jamais que para ser grandes, precisamos ser inteiros; tomando o exemplo da lua, que em todo lago brilha porque alta vive. 
Isto deveria ser um discurso breve de orador. Mas tamanha era a emoção em mim enquanto o escrevia na manhã de hoje que talvez esteja emotivo demais, subjetivo em demasia, chegando a se confundir com uma carta de amor de um futuro professor apaixonado por sei lá o quê. Tudo bem ser ridículo. Não há problemas. Afinal, “todas as cartas de amor de amor são ridículas/não seriam cartas de amor se não fossem ridículas/também escrevi no meu tempo cartas de amor, como as outras, ridículas/as cartas de amor, se há amor/têm que ser ridículas/mas, afinal, só as criaturas que nunca escreveram cartas de amor é que são ridículas”.
O agradecimento é a memória do coração.
E todos e todas vocês estão inscritos em mim na forma de memórias.
São, portanto, parte de mim.
Muito obrigado.


























E assim estivemos lilasmente!

Cúmplices das conquistas dos que amamos...
Daqueles que nem conheciam...
Mas...que sabemos SER conquistadores das Letras 2014.2
UERN -Campus Avançado Prefeito Walter de Sá Leitão!
 Parabéns lilasmente...
E até o próximo evento em que estaremos lilasmente SHOW!

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